Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

segunda-feira, 15 de julho de 2024

À Maria João


Da margem esquerda da vida

Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num halo vago, que atrai.

É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
P'ra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.

Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.

Reinaldo Ferreira,”Poemas” Livro IV-Dispersos, Imprensa Nacional de Moçambique, Lourenço Marques, 1960

Etiquetas: , , ,

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Timbre




EU,
Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sózinhos.

Reinaldo Ferreira, poema autográfico, in "Poemas", Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.


(Nota: Este blog completa hoje dez anos de existência)

Etiquetas: , , ,

quinta-feira, 24 de março de 2016

Receita para fazer um herói


"Receita para fazer um herói"

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.


Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira, poema autográfico.

Etiquetas: , , ,

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Sem sentido...



(...)
O belo verso quedou-se,
Névoa de intuito sem forma.
...
Ah, se o cumprisse! Ah, se fosse
Alheia a mim esta norma
De naufragar uma frase!
E o belo verso quedou-se,
Todo um triz, todo um quase.

Assim também, em viagem,
Súbita rompe a indiferença
Da mal olhada paisagem
Imperativa presença
Que intensa chama por nós,
E logo não é imagem,
E logo foge, veloz!

Assim também, arrefece
Mal desce a noite sombria,
Todo o mar que o sol aquece
Na curva larga do dia.
Água tão fria, e foi morna!
Assim a imagem que cesse
Se queda em nada e não torna.

....................................................

Reinaldo Ferreira

Etiquetas: , ,

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Segundo canto para a renovação do Natal




A Noémia de Sousa

Tudo foi emprestado e alheio
Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:
A gruta, que os presépios embelezam,
- Ou talvez um estábulo?
- Ou talvez o ventre autêntico da mãe?
A burra e a vaca,
José, que era o pai cómodo,
E a mãe, que era o empréstimo supremo,
O recurso, a verdade
E a necessidade
Para que Deus nascesse entre os homens,
Mais do que Deus,
Um Homem.
Havia os magos com presentes deslocados,
O astro dos sinais,
A voz, o anjo, os pastores e a frase
Que nos presépios fabricados
Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.
Havia a noite e nós,
Filhos de pai e mãe,
Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,
Fruto d'A que não teve marido neste mundo
Para que o filho deslizasse sem pecado.
E havia Herodes,
Para que não fosse fácil
O que era inevitável.
E houvesse drama.
Ora bem.
Entre a burra e a vaca,
Dentro do hálito tépido das bestas,
Sobre as palhas
E ao nível das tetas,
O menino jazia
Nascido,
Que é como quem diz cumprido
Da promessa que havia.
José,
Os magos e os pastores
Tinham a sua fé;
A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;
A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,
Que é tudo,
Porque tudo e nada são a mesma coisa;
O Menino tinha o mistério de ser menino
E já Deus;
Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe
E só mãe.
Ela é o Natal.
Ora bem.
Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,
Nem sequer de José,
Do amável, do amoroso José
Que nos enternece
E discreto desaparece
Pela esquerda baixa
Do primeiro quadro da tragédia
De que somos o coro
- E também a tragédia.
Mas falemos d'Ele,
Que Ele é Ele,
Mesmo quando se faz pequenino
Para ter o nosso tamanho.
Não falemos da noite,
Que é um pouco mais que tudo isso,
- E menos do que a mãe,
De quem falemos.
Ora bem.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada na vista do conjunto
Que é o Natal,
Comparsa dos presépios que hão-de vir,
Entre arraiais e foguetes
E estrelas de papel.
Ela ali estava para ser pintada
Na fuga para o Egipto,
Ao trote gracioso do burrito,
Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,
Que mandam mais que Herodes
E todos os seus bigodes.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada – pouco e bem –
Sem o burrito, só com Sant'Ana e S. José
No breve engano de ser só mãe
Dum filho que fosse só filho.
Ela ali estava para ser pintada
No alarme de Jesus entre os doutores.
Ela ali estava p'ra não ser pintada
Depois que Jesus fez trinta,
Antes dos trinta e três
(Disseram trinta doutores:
- Diga trinta e três.
Ele disse.
Ele disse e morreu
Sem sofrer dos pulmões).
Ela ali estava para ser pintada
E no zénite de Jesus ser Jesus,
Depois dos trinta,
Quando Jesus
Fez
Trinta e três,
Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.
Ora bem.
A cruz que Ele trazia,
Mal lhe pesava.
Ele esperava.
Ele salvava.
Ele descia
E por isso subia.
Ela era mulher, era mãe – e Sabia.
A sua cruz
Era Jesus.
O seu inferno
Era ser mãe do Eterno
Que havia de sangrar
E morrer
Pelo caminho.
Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,
Que é como quem diz, no estábulo.
Não é a estrela que A deslustra
(O Universo e todos os seus astros
Não valem o que Ela é);
Não são os magos que A repelem
Para o canto, de não ser rainha,
Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;
Não é José que A excede, porque José é José,
E isso lhe basta sem ser bastante;
Não é o Filho que A tolda,
Porque Ela é a Mãe.
Ora bem.
É ser a Mãe.
É ver que o Seu menino
Não é apenas menino,
Mas a dose anunciada
De Homem e Deus;
A ponte que tem de ser pisada
Para que haja estrada
Para os céus;
É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,
O filho que Ela estremece
Vivo e já morto,
Porque o Pai quer e Ela obedece.
Irmãos em Cristo!
Irmãos do mesmo pai,
Quem quer que seja o Cristo
Que buscais.
Esta é a Sua hora!
A Sua – e a nossa.
Ela é o Natal.
Avé-Maria.
Ora bem.


Reinaldo Ferreira, in “Poemas” Livro III - Poemas de Natal e da Paixão de Cristo, Imprensa Nacional de Moçambique, Lourenço Marques, 1960


(Para todos um Feliz Natal)

Etiquetas: , , ,

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia...

Foto © Ricardo Rangel

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira, in "Poemas", Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

Etiquetas: , , ,

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Onde, aguardando, esperasse


Onde, aguardando, esperasse,
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.
Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,
Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.

Reinaldo Ferreira, in "Poemas", Livro IV-Dispersos, Imprensa Nacional de Moçambique, Lourenço Marques, 1960.

Etiquetas: , , ,

quarta-feira, 14 de março de 2012

Timbre


EU,
Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sózinhos.

Reinaldo Ferreira, poema autográfico, in "Poemas", Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

Etiquetas: , , ,

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Ponto

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

Reinaldo Ferreira, poema autográfico, in "Poemas", Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

Etiquetas: , , ,

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Quanto mistério na semente


Quanto mistério na semente
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!

Reinaldo Ferreira, “Poemas”, Livro IV – Dispersos, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960

(A minha Avó)

Etiquetas: , ,

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Timbre


EU,

Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sózinhos.


Reinaldo Ferreira, poema autográfico, in "Poemas", Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.



Etiquetas: , , ,

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fácil de entender...

">

"Acordes gastos"

Acordes gastos
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.
Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.
Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.
Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.

Reinaldo Ferreira, “Poemas”, Livro IV – Dispersos, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960

Etiquetas: , , , , ,

domingo, 11 de abril de 2010

Haja névoa




Haja névoa!
Dancem os véus na minha alma
(E externos nas luzes próximas,
Que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
Paire nela a memória dos maníacos
Sonhando na penumbra dos portais
Assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
Aqui e além no mar.
No mar, nos mares, para que todas as viagens,
Para que todos os barcos em todas as paragens,
Na iminência dos naufrágios improváveis
- Improváveis, possíveis -,
Se gastem nos avisos aflitos
Das luzes, dos rádios, dos radares,
Dos gritos
Dos apitos.
Haja, haja névoa...
Desgastem-se os contornos
Das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
E eu, nas ruas distorcidas,
Livre e tão leve
Como se fosse eu próprio a névoa
Da noite longa duma existência breve.


Reinaldo Ferreira, “Poemas”, Livro I – Um voo cego a nada, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

Este blogue faz hoje quatro anos, é muito tempo para actividade de "copy & paste", a ideia inicial era, tão só (daí o titulo), colocar aqui as poesias de Reinaldo Ferreira, mas, amigos como a IO, Web e MD incentivaram-me a continuar, novos e fieis leitores e a constatação através dos motores de busca de alguma utilidade, fizeram o resto.
A todos o meu Obrigado.

Etiquetas: , ,

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Medo


Amália Rodrigues


Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.



Reinaldo Ferreira, in "Poemas", Livro I – Um voo cego a nada, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

A minha Mãe

Etiquetas: , , , ,

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Segundo canto para a renovação do Natal




A Noémia de Sousa

Tudo foi emprestado e alheio
Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:
A gruta, que os presépios embelezam,
- Ou talvez um estábulo?
- Ou talvez o ventre autêntico da mãe?
A burra e a vaca,
José, que era o pai cómodo,
E a mãe, que era o empréstimo supremo,
O recurso, a verdade
E a necessidade
Para que Deus nascesse entre os homens,
Mais do que Deus,
Um Homem.
Havia os magos com presentes deslocados,
O astro dos sinais,
A voz, o anjo, os pastores e a frase
Que nos presépios fabricados
Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.
Havia a noite e nós,
Filhos de pai e mãe,
Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,
Fruto d'A que não teve marido neste mundo
Para que o filho deslizasse sem pecado.
E havia Herodes,
Para que não fosse fácil
O que era inevitável.
E houvesse drama.
Ora bem.
Entre a burra e a vaca,
Dentro do hálito tépido das bestas,
Sobre as palhas
E ao nível das tetas,
O menino jazia
Nascido,
Que é como quem diz cumprido
Da promessa que havia.
José,
Os magos e os pastores
Tinham a sua fé;
A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;
A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,
Que é tudo,
Porque tudo e nada são a mesma coisa;
O Menino tinha o mistério de ser menino
E já Deus;
Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe
E só mãe.
Ela é o Natal.
Ora bem.
Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,
Nem sequer de José,
Do amável, do amoroso José
Que nos enternece
E discreto desaparece
Pela esquerda baixa
Do primeiro quadro da tragédia
De que somos o coro
- E também a tragédia.
Mas falemos d'Ele,
Que Ele é Ele,
Mesmo quando se faz pequenino
Para ter o nosso tamanho.
Não falemos da noite,
Que é um pouco mais que tudo isso,
- E menos do que a mãe,
De quem falemos.
Ora bem.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada na vista do conjunto
Que é o Natal,
Comparsa dos presépios que hão-de vir,
Entre arraiais e foguetes
E estrelas de papel.
Ela ali estava para ser pintada
Na fuga para o Egipto,
Ao trote gracioso do burrito,
Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,
Que mandam mais que Herodes
E todos os seus bigodes.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada – pouco e bem –
Sem o burrito, só com Sant'Ana e S. José
No breve engano de ser só mãe
Dum filho que fosse só filho.
Ela ali estava para ser pintada
No alarme de Jesus entre os doutores.
Ela ali estava p'ra não ser pintada
Depois que Jesus fez trinta,
Antes dos trinta e três
(Disseram trinta doutores:
- Diga trinta e três.
Ele disse.
Ele disse e morreu
Sem sofrer dos pulmões).
Ela ali estava para ser pintada
E no zénite de Jesus ser Jesus,
Depois dos trinta,
Quando Jesus
Fez
Trinta e três,
Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.
Ora bem.
A cruz que Ele trazia,
Mal lhe pesava.
Ele esperava.
Ele salvava.
Ele descia
E por isso subia.
Ela era mulher, era mãe – e Sabia.
A sua cruz
Era Jesus.
O seu inferno
Era ser mãe do Eterno
Que havia de sangrar
E morrer
Pelo caminho.
Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,
Que é como quem diz, no estábulo.
Não é a estrela que A deslustra
(O Universo e todos os seus astros
Não valem o que Ela é);
Não são os magos que A repelem
Para o canto, de não ser rainha,
Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;
Não é José que A excede, porque José é José,
E isso lhe basta sem ser bastante;
Não é o Filho que A tolda,
Porque Ela é a Mãe.
Ora bem.
É ser a Mãe.
É ver que o Seu menino
Não é apenas menino,
Mas a dose anunciada
De Homem e Deus;
A ponte que tem de ser pisada
Para que haja estrada
Para os céus;
É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,
O filho que Ela estremece
Vivo e já morto,
Porque o Pai quer e Ela obedece.
Irmãos em Cristo!
Irmãos do mesmo pai,
Quem quer que seja o Cristo
Que buscais.
Esta é a Sua hora!
A Sua – e a nossa.
Ela é o Natal.
Avé-Maria.
Ora bem.


Reinaldo Ferreira “Poemas” Livro III - Poemas de Natal e da Paixão de Cristo

(Para todos um Feliz Natal)

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Desde quando alguma vez anoiteceu




Desde quando alguma vez anoiteceu

E à angústia de que a terra se cobriu

Só pasmo nas esferas respondeu;

Desde quando alguma flor emurcheceu

E a criança que válida se ria

De repente calada apodreceu;

Desde quando a algum estio sucedeu

Um outro outono e a árvore se despiu

E a primeira cabeça encaneceu;

Desde quando alguma coisa que nasceu

Sem que o pedisse, sem remédio se degrada

E acaba, sob a terra que a comeu,

Dispersa entre os átomos dispersos,

Se acumula a tristeza deste dia

E a razão destes versos.


Reinaldo Ferreira, “Poemas”, Livro I – Um voo cego a nada, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

(À minha Avó)

Etiquetas: , ,

sábado, 21 de novembro de 2009

Medo


Hoje, Amália Hoje

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.



Reinaldo Ferreira

Etiquetas: , , , ,

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia


Foto Petra Nemcova


Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.


Reinaldo Ferreira,
in "Poemas", Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Ponto


Mínimo sou.

Mas quando ao Nada empresto

A minha elementar realidade,

O Nada é só o resto.



Reinaldo Ferreira, poema autográfico, in "Poemas", Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

Etiquetas: , ,

terça-feira, 30 de junho de 2009

Na morte de Reinaldo Ferreira (50 anos)



Recusando a simetria académica
dum frio céu azul,
desce por si à desarmonia incandescente
dos infernos,
mergulhando até às ilhargas
no lodo carnal das paixões
que arrastou em vida.
Desce puro,
desce sereno,
na electricidade estática do olhar,
no amarelo dos cabelos em desalinho,
- uma enorme flor lilás
abrindo-lhe o fundo, magro peito.
Desce,
o menestrel de tontas melodias,
aos panoramas de uma infância
adulta.
O que na vida repartiu seu poema
por alados guardanapos de papel,
o criador de sonhos logo perdidos
na berma dos caminhos,
o mago que pressentia o segredo
da beleza perene,
recusa
a estática arquitectura dos parténones celestes
e desce,
simples,
sangrando,
sereno,
à angústia vulcânica dos infernos torturados,
onde
se mira como num espelho.

Rui Knopfli





Reinaldo Ferreira, foto de Rui Knopfli


Reinaldo Ferreira


Antes de mim, já outros o fizeram.
Dominadores de mundos circunscritos,
só se submetem aos que consideram
ser do domínio fulvo dos seus mitos.

Se vivem, é para o desnudamento
da íntima direcção que em si arrua
os gelos vindos de um cabo do alento
duma promessa a uma verdade sua.

Antes de mim, já outros o fizeram.
Com o cinzeiro cheio, amanheceram
ante a escarpa do olhar dentro de si.

Na mesa do café, tardando à mesa,
à curva do seu fardo de beleza,
como à do meu destino, obedeci


Sebastião Alba





Timbre



EU,

Morreu.

Só há ideal

No plural.

Tecidos

Como os fios que há nos linhos,

Parecidos

Entre nós como dois olhos,

Somos do tempo de viver aos molhos

Para morrer sózinhos.



Reinaldo Ferreira, poema autográfico, in "Poemas", Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960.

Etiquetas: , , , ,