Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Não quero, não



Não quero, não
Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,

seja baio ou alazão,

sentir o vento na cara,

sentir a rédea na mão.
Não quero, não quero, não

ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:

quero saber-lhe a razão,

sentir-me dono de mim,

ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.

Eugénio de Andrade

sábado, 21 de abril de 2007

Quando eu nasci



Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais…

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.


As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém…


P’ra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe…

Sebastião da Gama

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Ó Gente Da Minha Terra

Aquele senhor que desde a infância me conhece



Aquele senhor que desde a infância me conhece,
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?

Reinaldo Ferreira, "Poemas" Livro I, Um voo cego a nada

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Cathedral Song

Mãezinha



A terra de meu pai era pequena

e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misséis.
Corria branda a noite e a vida era serena.


Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.


28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)


Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.


Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.


Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.


Dessas 9 excelentes raparigas

uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.


António Gedeão

Old Friends

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Vivo na esperança de um gesto (presumindo que Reinaldo Ferreira não se importaria...)




Porque não a tenho, tão doce
Do poeta a palavra certa
O timbre, a grandeza
Olhos iguais, outro olhar?
Porque não cruza o poeta
Suas linhas cruzadas com as minhas
E não passa comigo de mãos dadas pela vida?,
Perguntas-me quem sou?
Que gesto?
Sou astro errante
Regressado de parte alguma do oriente
Como folhas em torvelinho sem saber porquê!
Sou esboço para a invenção de uma poetisa.
Mas ela, a poesia de hoje, ontem e amanhã
Sabe que a emoção é como um pássaro
E que eu trouxe comigo a força
Para seguir um caminho.
Sei que a ternura não é coisa que se peça.
Mas poeta, vivo na esperança de um gesto.
Se eu tivesse a tua bênção
Com grandeza e a palavra certa
Aos Deuses do meu imaginário pediria
Um cavalo de várias cores
Com sela feita de esperança
Que me levasse a um lugar distante
Onde os sonhos fossem reais
E a vida não.
Ao lugar onde encontrasse Meu Pai!


Anónimo(a)