Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Momento de Poesia



Anoitecia quando eu passei
Na doca dos pescadores.
Uma lanterna luzia à ré
Duma traineira sem nome.
A mancha dos mestres humildes
Sem nenhuma galhardia
Riscava de carvão
A cinza do anoitecer.
E parando-se a olhar
—Olhando somente o mar—
Eu parado não sabia
Se os homens são bons ou maus.
Passou um carro a zunir
E lá dentro vozes riam.
Depois fiquei só, mais a noite
Mais os barcos e a lanterna,
Submersos em maresia.
Um vulto, de repente
Roubou a luz amarela
Àquele nocturno palpável,
—Oh! João! Já vais?…
Da terra ninguém respondeu.
Só se ouviu de novo o mar.
E enquanto ali fiquei
—Preso ao mar e libertado—
Por mais que eu procurasse,
Nenhuma ideia encontrei
—Nada que me lembrasse
Problemas sociais.
As palmeiras da avenida
Com o vento recitaram
Umas frases sem conceito.
E nada mais.

Veríssimo


( António Veríssimo Sarmento Gouveia Lemos )

Receita para fazer um herói



Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.




Reinaldo Ferreira

terça-feira, 29 de agosto de 2006

O País da Marrabenta





by GPROFAM

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Cavalo de várias cores



Quero um cavalo de várias cores,

Quero-o depressa que vou partir.

Esperam-me prados com tantas flores,

Que só cavalos de várias cores

Podem servir.



Quero uma sela feita de restos

Dalguma nuvem que ande no céu.

Quero-a evasiva - nimbos e cerros -

Sobre os valados, sobre os aterros,

Que o mundo é meu.



Quero que as rédeas façam prodígios:

Voa, cavalo, galopa mais,

Trepa às camadas do céu sem fundo,

Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,

Para onde tendem as catedrais.



Deixem que eu parta, agora, já,

Antes que murchem todas as flores.

Tenho a loucura, sei o caminho,

Mas como posso partir sózinho

Sem um cavalo de várias cores ?



Reinaldo Ferreira, "Poemas" Livro I-Um voo cego a nada

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Posteridade


Um dia eu, que passei metade

da vida voando como passageiro,

tomarei lugar na carlinga

de um monomotor ligeiro

e subirei alto, bem alto,

até desaparecer para além

da última nuvem. Os jornais dirão:

Cansado da terra poeta

fugiu para o céu. E não

voltarei de facto. Serei lembrado

instantes por minha família,

meus amigos, alguma mulher

que amei verdadeiramente

e meus trinta leitores. Então

meu nome começará aparecendo

nas selectas e, para tédio

de mestres e meninos, far-se-ão

edições escolares de meus livros.

Nessa altura estarei esquecido.




Rui Knopfly, "Mangas verdes com sal", 1972, 2ª Ed., LM, Minerva Central