Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

terça-feira, 31 de julho de 2007

Mélange adultère de tout



En Amérique, professeur;
En Angleterre, journaliste;
C'est à grands pas et en sueur
Que vous suivrez à peine ma piste.
En Yorkshire, conférencier;
A Londres, un peu banquier,
Vous me paierez bien la tête.
C'est à Paris que je me coiffe
Casque noir de jemenfoutiste.
En Allemagne, philosophe
Surexcité par Emporheben
Au grand air de Bergsteigleben;
J'erre toujours de-ci de-là
A divers coups de tra la la
De Damas jusqu'à Omaha.
Je célébrai mon jour de fête
Dans une oasis d'Afrique
Vêtu d'une peau de girafe.

On montrera mon cénotaphe
Aux côtes brûlantes de Mozambique.


T.S.Eliot

sábado, 28 de julho de 2007

A meu favor




A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O’Neill

domingo, 15 de julho de 2007

Respiro o teu corpo


Foto: Petra Nemcova

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,

sabe a cal molhada,

sabe a luz mordida,

sabe a brisa nua,

ao sangue dos rios,

sabe a rosa louca,

ao cair da noite

sabe a pedra amarga,

sabe à minha boca.


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de julho de 2007

António Veríssimo Gouveia Lemos



Lamego, cerimónia de homenagem ao jornalista António Veríssimo Sarmento Gouveia Lemos, natural desta cidade e que se distinguiu em Moçambique nas décadas de "50" "60" e "70".
Apresentação pelo Dr. Fernando Amaral e palestra do Engenheiro Eugénio Lisboa.

Vídeo da autoria de Paulo Lemos Quintela

quinta-feira, 12 de julho de 2007

O rapaz, o velho e o cartaz



Crónica no jornal "O Arrais" sobre as eleições legislativas de 83, da autoria do Dr. Camilo de Araújo Correia, médico anestesista do Hospital Distrital de Lamego, filho do conhecido médico e escritor , Dr João de Araújo Correia

Poema da Auto-estrada



Voando vai para a praia

Leonor na estrada preta

Vai na brasa de lambreta.


Leva calções de pirata,

Vermelho de alizarina

modelando a coxa fina

de impaciente nervura.

Como guache lustroso,

amarelo de indantreno

blusinha de terileno

desfraldada na cintura.


Foge, foge, Leonoreta.

Vai na brasa de lambreta.

Agarrada ao companheiro

na volúpia da escapada

pincha no banco traseiro

em cada volta da estrada.

Grita de medo fingido,

que o receio não é com ela,

mas por amor e cautela

abraça-o pela cintura.

Vai ditosa, e bem segura.


Como rasgão na paisagem

corta a lambreta afiada,

engole as bermas da estrada

e a rumorosa folhagem.

Urrando, estremece a terra,

bramir de rinoceronte,

enfia pelo horizonte

como um punhal que enterra.

Tudo foge à sua volta,

o Céu, as nuvens, as casas,

e com os bramidos que solta

lembra um demónio com asas.


Na confusão dos sentidos

já nem percebe, Leonor,

se o que lhe chega aos ouvidos

são ecos de amor perdidos

se os rugidos do motor.


Foge, foge, Leonoreta

Vai na brasa de lambreta.


António Gedeão

sexta-feira, 6 de julho de 2007

O Baile



Devagar, devagarinho,

Subo as escadas do palco.

Com jeitinho,

Afasto docemente as cortinas.

Os meus olhos buscam cenas de tempos vividos.

Os anos passaram …..

As lembranças são eternas.

Os anos passaram……

Saudades! Sim…. Talvez…. e porque não?

Se os meus sonhos foram tão altos

Que ficaram escritos com letras de ouro!

Esquecer? Porquê?.....

Se a vida é um grande baile….

Onde as almas se encontram, se esbarram,

Se unem, se separam

Cada qual bailando nos conflitos,

Nas esperanças…..

Nas suavidades de todos os anos que se foram!

Hoje, além de sorrir,

Apetece-me rodopiar convosco

Até ao luar de uma outra noite,

Que mais uma vez se guardará,

Como coisa, que em lembrança se recorrerá

Um dia mais tarde…….

Quando os anos voltarem a passar.

Na partilha e no sonho

Não há porta nem freio,

Não há início nem fim,

Escrito em letras de ouro, só meio.

Apetece-me dizer obrigado.

Apetece-me agradecer a Todos

Amigos e Colegas

Por um imperativo simplesmente gostável.


MD

Oh! tarde de sábado britânica



Oh! tarde de sábado britânica,

Poema da rotina,

Prodígio do bem-estar...

Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,

Intenso, irregular,

Apenas sei a vibração e o desânimo

(O sol excessivo e a sombra opaca),

Olho-te no deslumbramento

De quem se banha

E se deslumbra

Em penumbra.


Reinaldo Ferreira, “Poemas” Livro I - Um voo cego a nada

quinta-feira, 5 de julho de 2007

The Sounds Of Silence...