Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

sábado, 12 de abril de 2008

S. Leonardo da Galafura III




"A palavra "Galafura" deriva de Galafre, o nome de um rei

mouro que há muitos, muitos séculos atrás viveu com o seu povo

no local onde hoje se ergue a freguesia. Até que um dia, o rei

mouro e o seu povo foram expulsos pelos cristãos e tiveram que

fugir para a outra margem do rio Douro. E D. Mirra ficou no

palácio, situado no monte de São Leonardo, encantada por seu

pai.

Conta o povo que durante o dia, D. Mirra se passeia pelo mato

que cobre o monte, em forma de serpente. À noite, recolhe-se

na gruta, cuja entrada é guardada por dois dragões ("dois

monstruosos lagartos"), à espera que um homem jovem e valente

quebre o feitiço. E que precisa ele de fazer? Nada mais do

que, ao bater da meia-noite do primeiro dia de Janeiro,

enfrentar e matar os dois dragões. Uma vez cumprida essa

tarefa, a bela D. Mirra entregar-se-á em sôfrego acto de amor

no silêncio da noite e à luz do luar. Quebrado, por fim, o

encanto, a pequena gruta abre-se, mostrando a antecâmara de um

luxuoso palácio subterrâneo, onde D. Mirra e o seu jovem

príncipe viverão felizes para sempre."

MD

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quinta-feira, 10 de abril de 2008

São Leonardo da Galafura II



À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga, in “Diário IX”

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terça-feira, 8 de abril de 2008

São Leonardo da Galafura




"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que o deixa de ser à

força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam:

é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens

titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que

nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes

dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo

virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno

pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se

atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes,

ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro.

Um poema geológico. A beleza absoluta.”


Miguel Torga, in “Diário XII "

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