Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

sábado, 19 de novembro de 2016

Ausência...



Esta pequena hora,
Sem o teu vulto, sem a tua espera,
Foi uma hora triste;
Foi como quando se acorda em Primavera
Já quando a Primavera não existe.

Miguel Torga - Diários

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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Magnificat

 Foto © Direitos de reprodução reservados.

Aí, a vida!
Quanto mais me magoa, mais a canto.
Mais exalto este espanto
De viver.
Este absurdo humano,
Quotidiano,
Dum poeta cansado
De sofrer,
E a fazer versos como um namorado,
Sem namorada que lhos queira ler.

Cego de luz, e sempre a olhar o sol
Num aturdido
Deslumbramento.
Cada breve momento
Recebido
Como um dom concedido
Que se não merece.
Aí, a vida!
Como dói ser vivida,
E como a própria dor a quer e agradece.

Miguel Torga

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sábado, 11 de abril de 2009

Não saibas: Imagina...


São Leonardo da Galafura

Deixa falar o mestre, e devaneia...

A velhice é que sabe, e apenas sabe

Que o mar não cabe

Na poça que a inocência abre na areia.



Sonha!

Inventa um alfabeto

De ilusões...

Um á-bê-cê secreto

Que soletres à margem das lições...



Voa pela janela

De encontro a qualquer sol que te sorri!

Asas? Não são precisas:

Vais ao colo das brisas,

Aias da fantasia...


Miguel Torga

Adenda

Este blog de copy & paste completou nesta data três anos, não foi por mero acaso, é o dia do aniversário de minha Avó, a quem devo as aias da fantasia...

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Now playing: Otis Redding - (Sittin' On) The Dock Of The Bay

via FoxyTunes

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quinta-feira, 10 de abril de 2008

São Leonardo da Galafura II



À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga, in “Diário IX”

(clicar nas imagens para dimensão real)

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terça-feira, 8 de abril de 2008

São Leonardo da Galafura




"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que o deixa de ser à

força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam:

é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens

titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que

nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes

dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo

virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno

pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se

atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes,

ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro.

Um poema geológico. A beleza absoluta.”


Miguel Torga, in “Diário XII "

(clicar nas imagens para dimensão real)

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