Ausência...
Esta pequena hora,
Sem o teu vulto, sem a tua espera,
Foi uma hora triste;
Foi como quando se acorda em Primavera
Já quando a Primavera não existe.
Miguel Torga - Diários
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" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli
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À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!
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"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que o deixa de ser à
força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam:
é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens
titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que
nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes
dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo
virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno
pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se
atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes,
ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro.
Um poema geológico. A beleza absoluta.”
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