Um Voo Cego A Nada...
" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca
incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se
sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca,
ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e
imunizados. A mínima exposição a determinadas
circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis
recorrências e acabamos por arder na altíssima febre
de uma recidiva sem regresso nem apelo".
Rui Knopfli
Há dias assim...
“E foi terrível isto de viver o que há-de vir
entre os que apenas usam o que ainda há.
Era como se tivessem apostado todos
em não me deixarem chegar
ao que eu andava a sonhar.
Enquanto pude fiz-me louco medido,
destes que andam à solta
sem ser preciso encerrá-los.
Encontrei exactamente a medida de escapar à medida deles
e sem estragar a medida de ninguém.”
José de Almada Negreiros, in “As Quatro Manhãs”
Etiquetas: José de Almada Negreiros, Poesia, Portugal
Há dias assim...
“E foi terrível isto de viver o que há-de virentre os que apenas usam o que ainda há.Era como se tivessem apostado todosem não me deixarem chegarao que eu andava a sonhar.Enquanto pude fiz-me louco medido,destes que andam à soltasem ser preciso encerrá-los.Encontrei exactamente a medida de escapar à medida delese sem estragar a medida de ninguém.”José de Almada Negreiros, in “As Quatro Manhãs”Etiquetas: José de Almada Negreiros, Poesia, Portugal
Ultimatum Futurista
Às gerações portuguesas do SécXXI Acabemos com este maelstrom de chá morno!
Mandem descascar batatas simbólicas a quem disser que não há tempo para a criação! Transformem em bonecos de palha todos os pessimistas e desiludidos!
Despejem caixotes de lixo à porta dos que sofrem da impotência de criar!
Rejeitem o sentimento de insuficiência da nossa época!
Cultivem o amor do perigo, o hábito da energia e da ousadia!
Virem contra a parede todos os alcoviteiros e invejosos do dinamismo!
Declarem guerra aos rotineiros e aos cultores do hipnotismo!
Livrem-se da choldra provinciana e da safardanagem intelectual!
Defendam a fé da profissão contra atmosferas de tédio ou qualquer resignação!
Façam com que educar não signifique burocratizar!
Sujeitem a operação cirúrgica todos os reumatismos espirituais!
Mandem para a sucata todas as ideias e opiniões fixas!
Mostrem que a geração portuguesa do século XXI dispõe de toda a força criadora e construtiva!
Atirem-se independentes prá sublime brutalidade da vida!
Dispensem todas as teorias passadistas!
Criem o espírito de aventura e matem todos os sentimentos passivos!
Desencadeiem uma guerra sem tréguas contra todos os “botas de elástico”!
Coloquem as vossas vidas sob a influência de astros divertidos!
Desafiem e desrespeitem todos os astros sérios deste mundo!
Incendeiem os vossos cérebros com um projecto futurista!
Criem a vossa experiência e sereis os maiores!
Morram todos os derrotismos! Morram! PIM! José de Almada Negreiros Poeta FUTURISTA
E
TUDO Nota: Este ultimatum deve ser lido pelo menos duas vezes prós muito inteligentes e d'aqui pra baixo é sempre a dobrar.Lisboa, 17 de Dezembro de 1917Etiquetas: José de Almada Negreiros, Poesia
Encontro
Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá prò futuro
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se é este o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.
Almada NegreirosBoomp3.comEtiquetas: José de Almada Negreiros, Poesia
Esperança

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade
Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?
Esperança
única que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.
Almada Negreiros(A todos um Bom Ano)
Etiquetas: José de Almada Negreiros, Poesia