Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

terça-feira, 27 de junho de 2006

À Paris



O meu Paris é Johannesburg,
um Paris certamente menos luz,
mais barato e provinciano.

Mas Johannesburg lembra-me o Paris
que não conheço: o mesmo movimento
endemoninhado, as luvas brancas
do polícia sinaleiro, o brilho das montras,
a cor da moda, os mesmos amorosos
que se beijam sem pudor nos bancos
das áleas ensolaradas, o Sena
que não há e a Torre Eiffel
que também não

À noite janto no Montparnasse
de Hilbrow, que é o Quartier Latin
do sítio e olho essas mulheres
excêntricas e belíssimas
de pullover e slacks helanca.

Olho também esses efebos de pálpebras
cendradas, com os ademanes e o ar triste
de quem vive na perplexidade dos sexos.
Depois do turkish coffee meto-me
até ao Cul de Sac e fico-me
a ouvir o sax maravilhado
de Kippie Moeketsi. O jazz, sim,
é genuíno e tem um bite
todo local.

Aqui ninguém sabe quem sou,
aqui a minha importância é zero.
Em Paris também.

Rui Knopfli, In "Máquina de Areia"

2 Comments:

Anonymous IO said...

Fernando, olha que eu chamei 'this is jazz, Rui' ao post onde pus este poema do Rui K., mas ele não se chama assim... - acho que o gamei à Erml, talvez ela saiba o título lol!.
Abraço, IO.

terça-feira, 29 de agosto de 2006 às 21:59:00 WEST  
Anonymous Anónimo said...

Obrigado, e peço desculpa...
E depois de ficar com os olhos pequeninos de muito andar pelo Google, correcção feita.
Beijo,
F

quinta-feira, 31 de agosto de 2006 às 14:22:00 WEST  

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