Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Esclarecimento a certo passo obscuro de uma biografia



E tu Poeta? Dois anos, duas vezes
trezentos e sessenta e cinco dias, é tempo.
Tempo de sobra. Seiscentos e trinta
alvoradas, seguidas de outros tantos poentes.
E os dias de permeio. Límpidos e claros,
como o amanhecer, como a brancura
implacável destas ruas, destes muros,
do aço brunido em que mar e céu se fundem.
Duro o pão e morno o espesso vinho,
iguais ao mormaço e ao vagar das horas
que nestas partes o fogo eterno acrescentam.
Fugias, por certo, ao brasido de S. Sebastião
até ao outro extremo, na Ponta da Ilha.
Ali é diferente o sal da brisa,
não rescende aos fumos da Índia,
nem à grande dor das cousas que passaram.
Respiravas então, talvez, aliviado.
Com a noite chegaria a insónia
ou o olvido, que não podiam
ser-te estranhos, a doçura árabe
destes rostos, o mistério nocturno destes corpos
a saberem a canela e maresia.
Depois vinha outro dia. E outro. E outro,
duas vezes trezentos e sessenta e cinco, sempre iguais e renovados em febre
e ansiedade, aceso o sonho imenso.
E incandescia o metal das palavras em que, só,
te desdobravas no clamoroso eco
que hoje vem sobressaltar-nos as madrugadas.
Que de conjecturas, de mágoas,
de projectos encetados e desfeitos,
de incidentes, sonhos breves,
esperanças vãs ou dilatadas
te curtiram e dilaceraram o peito,
jamais o saberemos.
Apenas se regista que, resgatado
pela amizade, partiste enfim,
ao cabo de duas vezes trezentos e sessenta e cinco dias bem contados.


Rui Knopfli

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