Um Voo Cego A Nada...

" Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". Rui Knopfli

sábado, 1 de outubro de 2011

Realidade


Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...
Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto —
Nesta localidade da cidade ...

Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?)...
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos...
Não me lembro, não me posso lembrar.

O outro que aqui passava, então,
Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais
lembradamente de azul.

Hoje, se calhar, está o quê?
Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado físisca e moralmente: não quero imaginar nada...

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.

Olhamos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Talvez isso realmente se desse...
Verdadeiramente se desse...
Sim, carnalmente se desse...

Sim, talvez...

Fernando Pessoa

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2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

gambuzine disse...
olá, vi o seu comentáriono blog petromax e queria saber mais sobre essa vida dupla do sr grosche e gostaria de saber se esse günther von reibnitz relamente é o sr grosch ...pode escrever-me para a caixa do correio do site mui agradecida
http://www.gambuzine.com
Domingo, 25 de Setembro de 2011 00h09min00s WEST

domingo, 2 de outubro de 2011 às 01:11:00 WEST  
Anonymous Anónimo said...

gambuzine disse...
Kurt Joachim Grosch, 1912-1992, veteran Mozambique deep water shell collector of German origin [Spondylus groschi Lamprell & Kilburn, 1995, Chiton (Chiton) groschi Kaas, 1979, Chicoreus (Triplex) groschi (Vokes 1978), Coluzea groschi Harasewych & Fraussen 2001].

era meu amigo...e näo um baräo nazi da realeza germänica ...
Terça-feira, 27 de Setembro de 2011 16h45min00s WEST

domingo, 2 de outubro de 2011 às 01:12:00 WEST  

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